quarta-feira, 15 de junho de 2016

Taxi Driver (Taxi Driver, 1976 – Martin Scorsese)



Um lobo solitário vagando a noite pela selva urbana

Por Leonardo Carnelos

Robert de Niro interpreta Travis Bickle, um veterano da guerra do Vietnã que se reintegra à sociedade na grande metrópole que Nova Iorque se tornou em meados da década de 1970. Martin Scorsese tem grande mérito em retratar o submundo soturno de uma grande cidade.

O tema da inadequação de veteranos de guerra estava em foco, especialmente nesta década nos EUA dado o movimento hippie. O curioso a notar é que se em Rambo, por exemplo, o protagonista está cheio de traumas e não consegue se reintegrar à sociedade, em Taxi Driver só temos um Travis extremamente à vontade na cidade, especialmente a noite. Ele tem um emprego, frequenta cinemas pornô, faz amizades com prostitutas e cafetões e até tenta arrumar uma namorada. 

Entretanto, a medida em que a história avança é possível notar que sua instabilidade psicológica trará à tona de volta o assassino que ele se tornou durante o treinamento militar e sua participação na guerra. Destaque para a cena em que ele treina sacara a arma em frente ao espelho que ficou icônica e recorrentemente é referenciada.

O retrato do submundo, como a periferia de grandes cidades, o mundo das drogas, prostituição e violência acabou tornando-se sua marca registrada, assim como seus personagens psicologicamente perturbados. Em certo momento no filme é possível perceber a psicopatia do protagonista em reagir de forma violenta a tudo considera estar errado, mas ao mesmo tempo, considerar normal levar uma pretendente a um cinema pornô. Depois desta constatação, o próprio fato dele alegar que é um ex-fuzileiro fica em xeque, será que ele esteve mesmo no Vietnã? Ou será que essa é a história que ele conta para os outros por ter vergonha de admitir que foi dispensado?


O final do filme é sensacional. A interpretação depende da visão de mundo de cada um. Você acha que Travis encontrou sua redenção ao salvar Iris? Ou você acha que o tiroteio é só mais um retrato triste e sorumbático de uma sociedade decadente? Travis Bickle é um grande herói, ou uma bomba relógio prestes a explodir?

A interpretação de Robert de Niro ficou muito marcante, e ela foi responsável por ter deslanchado sua carreira. Quem também merece grande destaque é Jodie Foster, que interpreta brilhantemente a prostituta Iris, quebrando totalmente o estigma de atriz mirim dos Estúdios Disney que ela carregava até então e despontando para o estrelato, deixando de ser coadjuvante e passando a ser a protagonista de seus filmes. Esta foi ainda a última trilha sonora assinada por Bernard Herrmann, grande parceiro de Alfred Hitchcock.

Taxi Driver foi indicado a 4 prêmios Oscar, mas acabou perdendo o prêmio principal para Rocky de Sylvester Stalone.

Informações Técnicas

Diretora:Martin Scorsese
Roteiro:Paul Schrader
Diretor de Fotografia:Michael Chapman
Trilha Sonora: Bernard Herrmann
Elenco: Robert de Niro, Jodie Foster
Ano:1976
Gênero: Drama
País: EUA
Duração: 113 minutos
Orçamento: U$1,3 milhões
Arrecadação: U$28,3 milhões



Trailer


Referências

quarta-feira, 30 de março de 2016

Encontros e Desencontros (Lost in Translation, 2003 – Sofia Coppola)



Multidão e solidão. Palavras que intuitivamente não deveriam andar juntas

Por Leonardo Carnelos

Na primeira tomada do filme temos Scarlett Johansson deitada na cama usando um lingerie. A cena foi inspirada nas pinturas de John Kacere, pintor foto realista que gostava de pintar fotografias mentais, o close exato de um momento íntimo de um casal que de tempos em tempos acessamos em nossa memória. Apesar do aparente sensualismo, o filtro fosco e a ausência de trilha já ditam o clima de todo o filme: melancolia.

Encontros e Desencontros é uma obra que celebra as dificuldades de comunicação entre as pessoas, desde um marido e uma esposa, até por diferenças culturais, como americanos no Japão. Sofia Coppola foi altamente influenciada pelo filme O Silêncio (1963), pertencente a trilogia do silêncio de Ingmar Bergman.

Através das encruzilhadas de seus protagonistas, a película é quase que uma exaltação da melancolia vivida por estar num lugar onde não se conhece a língua nativa. A solidão em meio a uma multidão retratada também referencia o grande pintor americano realista Edward Hopper e suas paisagens urbanas.


Charlotte (Scarlett Johansson) larga seus estudos para acompanhar seu marido fotógrafo em turnê, e u m grande dilema aflora quando ela passa a gastar seu tempo executando tarefas como o Ikebana, preparação de arranjos florais minimalistas, e ela passa a se ver como uma mulher submissa ao ver seu reflexo nas gueixas que ali habitavam.

Enquanto isso, Bob Harris (Bill Murray) um ator consagrado submete-se aos caprichos de produtores durante a gravação de um comercial de uísque em meio a uma crise de meia idade, questionando seu casamento. Em meio ao vazio existencial, os dois se encontram e desenvolvem uma relação de empatia mútua de sofrimento, mas ao mesmo tempo sentem-se incapazes de modificar o status quo de suas relações.


O verdadeiro título do filme significa que muito da comunicação perde-se na tradução de uma língua para outra, dificultando, portanto a comunicação. Chega a ser irônico para um espectador do filme que não conheça o título original, perca um pouco da mensagem a ser passada pela diretora. Praticamente uma metalinguagem de como muita informação perde-se na tradução.

Informações Técnicas
Diretora: Sofia Coppola
Roteiro: Sofia Coppola
Diretor de Fotografia: Lance Acord
Trilha Sonora: Kevin Shields
Elenco: Scarlett Johansson e Bill Murray
Ano: 2003
Gênero: Drama, Romance
País: EUA e Japão
Duração: 101 minutos
Orçamento: U$4 milhões
Arrecadação: U$120 milhões

Trailer


Referências






sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

O Dia em que a Inspiração Apareceu, de Rob Gordon



Uma história sensível sobre a arte e a vida



O começo do conto já é extremamente corajoso. Nos primeiros parágrafos, e pela própria capa, já é possível notar um certo ar noir. Depois outras boas referências vem, como Um conto de Natal de Charles Dickens e Medianeras, filme argentino de Gustavo Taretto. Mas acima disso tudo está uma das principais características de Rob Gordon, a tremenda sensibilidade de extrair emoções de cenas cotidianas simples. 


Sempre consumi arte, primeiro por uma necessidade básica, conforme descrevo no editorial do meu blog (A vida não faz sentido sem o estudo da arte); mas também por que tenho convicção que algumas delas me tornam uma pessoa melhor. Este é o caso de O Dia em que a Inspiração Apareceu, um conto que me conquistou já na sua descrição: “O mais importante não é descobrir se uma história é real, e sim o que ela pode ensinar sobre a realidade.”

Referências
O Dia em que a Inspiração Apareceu

 

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Star Wars x Fundação

por Rodrigo Popinhak Franco





Tudo bem, todo mundo gostou do episódio 7 apesar do mesmo ter roteiro idêntico ao episódio 4. Mas já que é assim, vamos parar de falar mal do Jar Jar Binks, pois os roteiros do George Lucas são infinitamente mais interessantes.  Em tempos que Star Wars, virou um fenômeno multi massas e várias pessoas dizem que os três primeiros filmes da saga são dispensáveis, resolvi sair em defesa dos mesmos. Isso por que há algum tempo atrás li quatro livros da serie Fundação de Isaac Asimov. Sendo um fã de star wars e ao ler Fundação, notei várias semelhanças de ideias com Star Wars. Estranho ninguém na internet se atentar para isso! Primeiramente, a trilogia Fundação é um sci-fi dos melhores e passa longe em qualidade de ideia do que star wars, que é uma aventura espacial (space opera).

A seguir vários spoliers de Star Wars episódios 1 ao 6 e da série Fundação.

No caso de Fundação, existe uma nova ciência chamada psico-história que conseguiria explicar o futuro com base em observação do comportamento das pessoas. A psico-história pode ser utilizada para manipular a história e fazer uma período de decadência dure menos, mas não evita-lo. 


Star Wars
Fundação
A Força. O ladro negro pode levar a galáxia ao caos.
O poder da força mental de um indivíduo singular pode violar os princípios da psico-história e levar a humanidade ao caos.
Darth Vader (Império) versus os Jedis (Republica, rebeldes). Tem o poder da Força.
O Mulo (Império) versus a Fundação psico-história(republica, rebeldes). O Mulo seria o lado negro (um poder mental representando ocultismos) e a psico-história a ciência, muitas vezes entendida como a luz.
Darth Vader é uma criança órfã que aparece com poderes acima da media e é aquele que trará equilíbrio para a Força.
O Mulo é uma criança órfã com poderes mentais acima da media e tratado como uma singularidade na equação da psico-história, mas nesse caso não tem redenção.
Uma arma mortal chamada estrela da morte que pode destruir planetas.
Uma arma atômica que também pode destruir planetas, mas que nesse caso está no domínio da Fundação ao invés de estar nas mãos do império.
General Tarkin, um cara duro responsável pela Estrela da Morte e subordinado do imperador.
General Priecher, um militar duro e implacável. No caso controlado mentalmente pelo Mulo.
Duelos finais de Darth Vader X Luke, dois personagens relacionados por parentesco. O duelo é mental pois Luke é sempre tentado para liberar sua raiva e ir para o ladro negro.
O final do livro é um duelo entre personagens que tem um relacionamento pessoal, em que um deles se revela o traidor (Mulo), mas tem afeto por uma mulher que nunca controlou pois ele a amava. O conflito é mental.
Coruscant
Trantor
A cena do anfiteatro entre Palpatine e Anakin no episódio 3.
No livro o Mulo usa um instrumento musical para amplificar sem controle mental sobre as pessoas pois isso amplifica seu poder. Isso é feito em um concerto musical também. Uma clara homenagem de George Lucas.
Aquela bola flutuante com uma seringa usada para interrogar Leia.
Psico Probe – Instrumento para tortura mental.
Han Solo – Um contrabandista em uma nave junto com Jabba o intermediador, fugindo do Império.
Contrabandistas em naves responsáveis pelo comércio. Em um momento a economia mais desenvolvida é a forma de dominação na Fundação e esses mercadores são personagens principais contra o poder do império. Da mesma forma como Han Solo eles acabam ajudando a Fundação.
Carro a jato do Luke em Tatooine.
Carro a jato para Eblin Miss em um planeta desértico.



 

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Campo de Trigo com Corvos, de Van Gogh



Vincent Van Gogh (1853-1890) foi um pintor pós-impressionista neerlandês. Campo de Trigo com Corvos é provavelmente um de seus últimos quadros, pois tudo indica que ele teria cometido suicídio poucos dias após terminá-lo.

Para tentar entender melhor o contexto desta obra, é preciso primeiro esclarecer que o pós-impressionismo não é um movimento claro e único propriamente dito. Ele apenas marca um conjunto de artistas que foram influenciados pelo impressionismo francês e deram um passo além em alguma direção.

No Impressionismo, a visão do artista sobre a paisagem ou ao objeto a ser retratado passa a ser mais importante em detrimento a perfeição da cópia de formas e cores. Van Gogh deixava bem claro em seus quadros a marca das pinceladas grossas e firmes. Além disso, fugiu dos tons pastéis do impressionismo para usar também tons mais fortes e marcantes. Em vários quadros é possível notar o forte contraste de luzes. Neste aqui, o contraste fica entre o céu escuro e carregado com certo brilho vibrante do campo de trigo iluminado pelo luar.

Ainda destacam-se a revoada de corvos, animais normalmente associados ao mau agouro; e a presença de três caminhos de terra que se formam nas fronteiras dos dois campos de trigo.

Acho interessante que além da beleza estética, o quadro tenha se tornado um ícone cultural por dois motivos curiosos. O primeiro é que existe uma tentativa clara de associar a pintura ao prenúncio do suicídio do pintor. Algo muito parecido aconteceu com o Réquiem de Mozart. Da mesma forma que o músico teria composto uma missa fúnebre para sua própria morte, Van Gogh teria vislumbrado o fim da sua vida como este caminho de terra cercado de corvos.

O segundo ponto é a transformação do quadro num objeto de estudo psicanalítico que tenta desvendar o que se passava na cabeça do artista que possuía crises de ansiedade e crises de desequilíbrio mental. Eu entendo que alguém com crise de ansiedade queira pintar uma paisagem com três opções de caminho. Eles praticamente nos convidam a escolher por onde seguir: pela direita, o caminho mais tortuoso e sem áreas laterais verdes; o caminho esquerdo que parece afunilar-se e não ter saída; ou o caminho central em forma de “S”, mais convidativo, porém acompanhado de corvos. Qual deles você escolheria?

Campo de Trigo com Corvos mora hoje no Museu Van Gogh, na Museumplain em Amsterdã. Como as obras do artista estão dispostas em ordem cronológica, o quadro passa a ser a última e principal atração do museu.

Referências