quarta-feira, 30 de março de 2016

Encontros e Desencontros (Lost in Translation, 2003 – Sofia Coppola)



Multidão e solidão. Palavras que intuitivamente não deveriam andar juntas

Por Leonardo Carnelos

Na primeira tomada do filme temos Scarlett Johansson deitada na cama usando um lingerie. A cena foi inspirada nas pinturas de John Kacere, pintor foto realista que gostava de pintar fotografias mentais, o close exato de um momento íntimo de um casal que de tempos em tempos acessamos em nossa memória. Apesar do aparente sensualismo, o filtro fosco e a ausência de trilha já ditam o clima de todo o filme: melancolia.

Encontros e Desencontros é uma obra que celebra as dificuldades de comunicação entre as pessoas, desde um marido e uma esposa, até por diferenças culturais, como americanos no Japão. Sofia Coppola foi altamente influenciada pelo filme O Silêncio (1963), pertencente a trilogia do silêncio de Ingmar Bergman.

Através das encruzilhadas de seus protagonistas, a película é quase que uma exaltação da melancolia vivida por estar num lugar onde não se conhece a língua nativa. A solidão em meio a uma multidão retratada também referencia o grande pintor americano realista Edward Hopper e suas paisagens urbanas.


Charlotte (Scarlett Johansson) larga seus estudos para acompanhar seu marido fotógrafo em turnê, e u m grande dilema aflora quando ela passa a gastar seu tempo executando tarefas como o Ikebana, preparação de arranjos florais minimalistas, e ela passa a se ver como uma mulher submissa ao ver seu reflexo nas gueixas que ali habitavam.

Enquanto isso, Bob Harris (Bill Murray) um ator consagrado submete-se aos caprichos de produtores durante a gravação de um comercial de uísque em meio a uma crise de meia idade, questionando seu casamento. Em meio ao vazio existencial, os dois se encontram e desenvolvem uma relação de empatia mútua de sofrimento, mas ao mesmo tempo sentem-se incapazes de modificar o status quo de suas relações.


O verdadeiro título do filme significa que muito da comunicação perde-se na tradução de uma língua para outra, dificultando, portanto a comunicação. Chega a ser irônico para um espectador do filme que não conheça o título original, perca um pouco da mensagem a ser passada pela diretora. Praticamente uma metalinguagem de como muita informação perde-se na tradução.

Informações Técnicas
Diretora: Sofia Coppola
Roteiro: Sofia Coppola
Diretor de Fotografia: Lance Acord
Trilha Sonora: Kevin Shields
Elenco: Scarlett Johansson e Bill Murray
Ano: 2003
Gênero: Drama, Romance
País: EUA e Japão
Duração: 101 minutos
Orçamento: U$4 milhões
Arrecadação: U$120 milhões

Trailer


Referências






sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

O Dia em que a Inspiração Apareceu, de Rob Gordon



Uma história sensível sobre a arte e a vida



O começo do conto já é extremamente corajoso. Nos primeiros parágrafos, e pela própria capa, já é possível notar um certo ar noir. Depois outras boas referências vem, como Um conto de Natal de Charles Dickens e Medianeras, filme argentino de Gustavo Taretto. Mas acima disso tudo está uma das principais características de Rob Gordon, a tremenda sensibilidade de extrair emoções de cenas cotidianas simples. 


Sempre consumi arte, primeiro por uma necessidade básica, conforme descrevo no editorial do meu blog (A vida não faz sentido sem o estudo da arte); mas também por que tenho convicção que algumas delas me tornam uma pessoa melhor. Este é o caso de O Dia em que a Inspiração Apareceu, um conto que me conquistou já na sua descrição: “O mais importante não é descobrir se uma história é real, e sim o que ela pode ensinar sobre a realidade.”

Referências
O Dia em que a Inspiração Apareceu

 

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Star Wars x Fundação

por Rodrigo Popinhak Franco





Tudo bem, todo mundo gostou do episódio 7 apesar do mesmo ter roteiro idêntico ao episódio 4. Mas já que é assim, vamos parar de falar mal do Jar Jar Binks, pois os roteiros do George Lucas são infinitamente mais interessantes.  Em tempos que Star Wars, virou um fenômeno multi massas e várias pessoas dizem que os três primeiros filmes da saga são dispensáveis, resolvi sair em defesa dos mesmos. Isso por que há algum tempo atrás li quatro livros da serie Fundação de Isaac Asimov. Sendo um fã de star wars e ao ler Fundação, notei várias semelhanças de ideias com Star Wars. Estranho ninguém na internet se atentar para isso! Primeiramente, a trilogia Fundação é um sci-fi dos melhores e passa longe em qualidade de ideia do que star wars, que é uma aventura espacial (space opera).

A seguir vários spoliers de Star Wars episódios 1 ao 6 e da série Fundação.

No caso de Fundação, existe uma nova ciência chamada psico-história que conseguiria explicar o futuro com base em observação do comportamento das pessoas. A psico-história pode ser utilizada para manipular a história e fazer uma período de decadência dure menos, mas não evita-lo. 


Star Wars
Fundação
A Força. O ladro negro pode levar a galáxia ao caos.
O poder da força mental de um indivíduo singular pode violar os princípios da psico-história e levar a humanidade ao caos.
Darth Vader (Império) versus os Jedis (Republica, rebeldes). Tem o poder da Força.
O Mulo (Império) versus a Fundação psico-história(republica, rebeldes). O Mulo seria o lado negro (um poder mental representando ocultismos) e a psico-história a ciência, muitas vezes entendida como a luz.
Darth Vader é uma criança órfã que aparece com poderes acima da media e é aquele que trará equilíbrio para a Força.
O Mulo é uma criança órfã com poderes mentais acima da media e tratado como uma singularidade na equação da psico-história, mas nesse caso não tem redenção.
Uma arma mortal chamada estrela da morte que pode destruir planetas.
Uma arma atômica que também pode destruir planetas, mas que nesse caso está no domínio da Fundação ao invés de estar nas mãos do império.
General Tarkin, um cara duro responsável pela Estrela da Morte e subordinado do imperador.
General Priecher, um militar duro e implacável. No caso controlado mentalmente pelo Mulo.
Duelos finais de Darth Vader X Luke, dois personagens relacionados por parentesco. O duelo é mental pois Luke é sempre tentado para liberar sua raiva e ir para o ladro negro.
O final do livro é um duelo entre personagens que tem um relacionamento pessoal, em que um deles se revela o traidor (Mulo), mas tem afeto por uma mulher que nunca controlou pois ele a amava. O conflito é mental.
Coruscant
Trantor
A cena do anfiteatro entre Palpatine e Anakin no episódio 3.
No livro o Mulo usa um instrumento musical para amplificar sem controle mental sobre as pessoas pois isso amplifica seu poder. Isso é feito em um concerto musical também. Uma clara homenagem de George Lucas.
Aquela bola flutuante com uma seringa usada para interrogar Leia.
Psico Probe – Instrumento para tortura mental.
Han Solo – Um contrabandista em uma nave junto com Jabba o intermediador, fugindo do Império.
Contrabandistas em naves responsáveis pelo comércio. Em um momento a economia mais desenvolvida é a forma de dominação na Fundação e esses mercadores são personagens principais contra o poder do império. Da mesma forma como Han Solo eles acabam ajudando a Fundação.
Carro a jato do Luke em Tatooine.
Carro a jato para Eblin Miss em um planeta desértico.



 

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Campo de Trigo com Corvos, de Van Gogh



Vincent Van Gogh (1853-1890) foi um pintor pós-impressionista neerlandês. Campo de Trigo com Corvos é provavelmente um de seus últimos quadros, pois tudo indica que ele teria cometido suicídio poucos dias após terminá-lo.

Para tentar entender melhor o contexto desta obra, é preciso primeiro esclarecer que o pós-impressionismo não é um movimento claro e único propriamente dito. Ele apenas marca um conjunto de artistas que foram influenciados pelo impressionismo francês e deram um passo além em alguma direção.

No Impressionismo, a visão do artista sobre a paisagem ou ao objeto a ser retratado passa a ser mais importante em detrimento a perfeição da cópia de formas e cores. Van Gogh deixava bem claro em seus quadros a marca das pinceladas grossas e firmes. Além disso, fugiu dos tons pastéis do impressionismo para usar também tons mais fortes e marcantes. Em vários quadros é possível notar o forte contraste de luzes. Neste aqui, o contraste fica entre o céu escuro e carregado com certo brilho vibrante do campo de trigo iluminado pelo luar.

Ainda destacam-se a revoada de corvos, animais normalmente associados ao mau agouro; e a presença de três caminhos de terra que se formam nas fronteiras dos dois campos de trigo.

Acho interessante que além da beleza estética, o quadro tenha se tornado um ícone cultural por dois motivos curiosos. O primeiro é que existe uma tentativa clara de associar a pintura ao prenúncio do suicídio do pintor. Algo muito parecido aconteceu com o Réquiem de Mozart. Da mesma forma que o músico teria composto uma missa fúnebre para sua própria morte, Van Gogh teria vislumbrado o fim da sua vida como este caminho de terra cercado de corvos.

O segundo ponto é a transformação do quadro num objeto de estudo psicanalítico que tenta desvendar o que se passava na cabeça do artista que possuía crises de ansiedade e crises de desequilíbrio mental. Eu entendo que alguém com crise de ansiedade queira pintar uma paisagem com três opções de caminho. Eles praticamente nos convidam a escolher por onde seguir: pela direita, o caminho mais tortuoso e sem áreas laterais verdes; o caminho esquerdo que parece afunilar-se e não ter saída; ou o caminho central em forma de “S”, mais convidativo, porém acompanhado de corvos. Qual deles você escolheria?

Campo de Trigo com Corvos mora hoje no Museu Van Gogh, na Museumplain em Amsterdã. Como as obras do artista estão dispostas em ordem cronológica, o quadro passa a ser a última e principal atração do museu.

Referências




sábado, 31 de outubro de 2015

M, o vampiro de Dusseldorf, de Fritz Lang



Se fazer justiça com as próprias mãos é permitido, quem vigia os vigilantes?



M, o Vampiro de Dusseldorf é o primeiro filme sonoro de Fritz Lang, diretor de cinema alemão famoso por filmes de sucesso como icônico Metropolis. No final da década de 1920, um assassino serial de crianças aterroriza a cidade do oeste da Alemanha. A polícia e a população da cidade em polvorosa sai em busca do infanticida deixando as ruas repletas de medo e apreensão.

M é um dos últimos representantes do movimento artístico que ficou conhecido como Expressionismo Alemão. Presente em diversas formas de arte, o Expressionismo no cinema mostrou se uma forma nova de se fazer filmes que adequou-se perfeitamente na falida Alemanha pós-primeira guerra, por ser uma forma de arte objetiva e assertiva.

Fugindo da perfeição, o expressionismo vale-se apenas de sombras e silhuetas para passar sua mensagem e esta é transmitida com grande eficiência. Se quiser explicar para alguém o que é o desespero, apenas lhe mostre o quadro O Grito de Edward Munch para alguém. É claro que este estilo cinematográfico adaptou-se melhor a gêneros como Terror, Suspense e Mistério. E este é o caso de M, apesar de no filme não existir o elemento fantástico que o título sugere.

M é um dos primeiros filmes policiais que tratam da captura e investigação de assassino serial, e por isso serviu de grande inspiração para os filmes Noir que vieram a seguir.

É necessário destacar a excelente cena do primeiro desaparecimento de uma criança onde Fritz Lang usa o Efeito Kuleshov, que nada mais é o enquadramento de objetos em uma sequência de planos detalhe, induzindo que o espectador conclua sozinho o que aconteceu. Uma cadeira vazia, um prato de comida, um balão voando entre os fios de alta tensão e horror já está instaurado em nossas mentes. Este efeito que desafia o espectador a pensar e tirar suas próprias conclusões a partir do poder de associação foi posteriormente largamente utilizado por Alfred Hitchcock, por exemplo, e é a maior prova de que no cinema a violência não precisa necessariamente ser mostrada, o horror proveniente de nossa criatividade é sempre muito pior do que um diretor talvez consiga implementar em tela.


Outro grande mérito do filme é a utilização de um Leitmotiv pela primeira vez no cinema. Leitmotiv é um tema musical recorrente utilizado para associar a um personagem, um sentimento ou um objeto importante dentro do filme. Este artifício foi inventado por Richard Wagner na ópera O Holandês Voador, e Fritz Lang, utilizou trecho da música No Saguão do Rei da Montanha de peça Peer Gynt de Edward Grieg como o primeiro Leitmotiv do cinema. Sempre que a plateia ouve o refrão da música sendo assobiado, sente a presença do assassino por perto. Uma perfeita combinação da utilização de uma trilha sonora diegética para mover a narrativa pra frente, e melhorar a percepção do espectador em relação a história.

Ainda é possível achar no filme uma tentativa, um proto Plano-Sequência quando uma associação de moradores da cidade passa a fiscalizar os cidadãos suspeitos nas ruas e a confiscar seus pertences com o intuito de investigar e encontrar o assassino. A câmera se move entre os cômodos da residência mostrando diversas ações e chega até mesmo a subir um andar e atravessar uma janela para continuar mostrando o absurdo daquela realidade.

Ainda é possível encontrar em M, enquadramentos pouco usuais, como a presença de um homem no andar de baixo através de um buraco no chão, compondo portanto uma montagem visível, tirando o espectador do filme em certos momentos com o intuito de aumentar o incômodo dos acontecimentos naquela cidade. Tantos méritos técnicos neste filme produzido no ano de 1931 que fico pensando: se ele fosse produzido em Hollywood provavelmente teria causado no mínimo tanto impacto quanto Cidadão Kane que Orson Welles iria dirigir 10 anos depois.

Zona de Spoilers
Num primeiro momento, fazer justiça com as próprias mãos pode parecer um bom negócio, mas as possíveis injustiças e principalmente as consequências a longo prazo sempre fazem com que as coisas saiam do controle, e temos diversos exemplos na história que comprovam tal assertiva. Acho extremamente intrigante ver Fritz Lang fazendo um filme sobre fascismo na Alemanha pré-Hitler.
Merece ainda todo destaque a excelente sequência final de julgamento do assassino Hans Beckert, interpretado pelo comediante Peter Lorre que em sua defesa desesperada agarra-se a grades remetendo seu desejo de ser preso ao invés de morto. É interessante ainda notar a dinâmica sem sentido da multidão que clama por justiça sem maiores delongas, a tentativa de linchamento, o posicionamento solitário do advogado de defesa, e a fala final afirmando que a morte do assassino não trará as crianças de volta. Um filme atemporal.

Trailer

Informações Técnicas
  • Diretor: Fritz Lang
  • Roteirista: Fritz Lang, Thea Von Harbou
  • Gênero: Drama, Suspense
  • Ano: 1930
  • Idioma: alemão
  • País: Alemanha
  • Duração: 1h57

Referências