Muita gente possui preconceito com filmes de artes marciais. As coreografias de luta aparentemente exageradas, com pessoas voando, andando sobre a água, entre outros aparentes absurdos devem ser encarados como folclore oriental.
No mundo ocidental o folclore é baseado em lobisomens, vampiros, bruxas, magos, sacis, mulas sem cabeça, entre outros; já no oriente o folclore está baseado em grandes mestres das artes marciais, que pulavam tão alto que pareciam que estavam voando, se moviam tão rápido que pareciam andar sobre a água, moviam suas espadas tão velozmente que mal se podia ver o golpe fatal a exterminar mais um inimigo.
Agora, já que a tecnologia permite filmar lutadores em tais movimentos folclóricos, por que não o faze-lo? O resultado de uma boa cena de luta, bem dirigida, é quase poético.
Vencido este primeiro preconceito podemos analisar os maiores clássicos deste gênero de filme. O filme Ying Xiong (2002) (http://www.imdb.com/title/tt0299977/) aqui conhecido como “Herói” conseguiu juntar num só filme: uma história épica, a lenda da unificação da China, ótimas cenas de luta, (by Jet Li), excelente direção (com auxílio de Quentin Tarantino) e fotografia impecável (estado da arte).
Já li muitas críticas políticas sobre o filme por que mostra um rei tentando trazer a paz ao povo através da guerra. Particularmente, apesar da idéia de um tirano dizimar uma cultura com o intuito de unificação ser ruim, a idéia de mafiosos sicilianos clamando por eterna vendetta, ou o ódio milenar entre árabes e judeus é muito pior. Esse dilema me faz lembrar a frase: “É melhor um final horroroso do que um horror sem fim.” Opiniões políticas a parte, o filme é muito mais que isso, o filme mostra a unificação da China de uma forma romântica, e não política.
O primeiro aspecto que chama a atenção no filme é a sabedoria do Rei de Qin. Não é a toa que ele se tornou o rei, provavelmente ele era o melhor preparado para o cargo. Durante todo o filme ele demonstrou sua sabedoria: percebeu que Nameless estava mentindo e tinha intenção assassina, depois descobriu que o mesmo hesitara, se mostrou indignado ao saber que a língua de seu país possuía dezenas de formas de escrita possíveis para uma mesma palavra, o que é inconcebível para uma comunicação eficiente, afirmando assim seu intento unificador, mostrou-se muito habilidoso com a espada ao lutar com Broken Sword, em pouco tempo de análise interpretou corretamente os três níveis que a palavra espada pode atingir, fez suposições muito próximas da verdade sobre a morte dos três assassinos, convenceu com sua sabedoria e confiança Nameless a não concluir o assassinato oferecendo sua espada e virando de costas, mostrou-se homem de honra ao mandar matar Nameless, mesmo sabendo que ele se arrependera de sua vingança e que poderia se tornar um poderoso aliado. Enfim, um verdadeiro líder.
Outro personagem forte é Broken Sword, a maneira como atingiu o domínio sobre a espada através do treino e através do estudo da caligrafia é um ótimo exemplo de que para atingir excelência num campo de conhecimento é fundamental ter uma postura multidisciplinar. Prova disso é que após dominar a arte da espada e a caligrafia, pelo poder da associação ele passou a entender também de política.
Podemos ver na cena em que Broken Sword cruza a espada com o Rei de Qin, que somente ao usar a espada ele compreende o terceiro nível de significado da palavra espada, que remete a política e faz com que ele naquele momento desista de matar o Rei de Qin, pois compreende que seu intento unificador é nobre e não deve ser interrompido.
O momento em que Nameless comenta que a luta com Sky aconteceu em suas mentes é um claro exemplo de que num sistema, uma vez conhecidas as variáveis e as leis que as regem, é possível prever qualquer experimentação, ou seja, quando as habilidades dos dois lutadores são conhecidas, é possível prever o que vai acontecer numa luta entre os dois.
Nameless chegou à sabedoria de outra forma, respeitando a opinião de alguém com maior capacidade que ele. Durante o filme ele reconhece que Broken Sword era mais habilidoso e sábio que ele. Nameless levou em consideração a opinião de Broken Sword, estudou a nova grafia de espada e após ouvir a interpretação do Rei de Qin sobre o ideograma conclui também que ele não podia interromper o intento unificador do Rei de Qin.
Já Flying Snow, apesar do treino com a espada, o estudo da caligrafia e do breakthrough de seu companheiro Broken Sword, ela não atingiu a sabedoria por que estava vedada pelo desejo de vingança, um claro exemplo de como uma postura emocional influencia um processo intelectual racional.
Moon, que aparentemente tem um papel secundário, foi fundamental em todas as versões da história, mostrando-se fiel ao seu mestre, porém mostrando imaturidade ao reagir emocionalmente em alguns momentos, reação típica de uma aprendiz com uma longa jornada pela frente.
A honra sempre presente nos filmes de cultura oriental aparece várias vezes no filme, por exemplo, quando Broken Sword não defende o golpe mortal de Flying Snow, quando Nameless não foge do palácio e praticamente espera ser exterminado para não atrapalhar o intento unificador do Rei de Qin, mas a minha cena favorita de honra no filme é quando o mestre da escola de caligrafia volta pra sua cadeira e começa a praticar caligrafia embaixo da chuva de flechas e seus pupilos voltam para seus lugares e fazem o mesmo. Na cultura ocidental esse professor seria o pior carrasco de qualquer escola.
A trilha sonora do filme, genuinamente chinesa e suavemente dramática combina perfeitamente com os esplêndidos cenários de várias partes da China. O músico cego no clube de Go (por aqui traduziram como xadrez, não está muito longe da realidade, pois Go é um jogo também complexo e muito comparado com xadrez) embala com leveza a luta que ocorre na mente de Nameless e Sky.
E pra completar este roteiro cheio de padrões, o diretor resolveu incrementar as belíssimas tomadas nos cenários mais belos da China: deserto, montanha, lagoa, campo e floresta com cores em destaque para cada parte do filme. O resultado é de uma beleza plástica nunca antes vista e dificilmente superável.
A primeira cena onde é destacada uma cor é quando Nameless conta que sua luta com Sky aconteceu em suas mentes e a cor destacada é o cinza, o cenário é o clube de Go embaixo de uma leve chuva.
A próxima cena é vermelha, nela Nameless narra uma história inventada sobre as mortes de Broken Sword, Moon e Flying Snow e o triângulo entre eles. Destaque para a morte de Moon, com um fundo cheio de árvores com folhas amareladas caindo por causa do Outono. A cena virou até comercial de impressora.
Na seqüência o Rei de Qin descobre que Nameless estava mentindo e narra seu palpite sobre o que aconteceu, a cor destacada é o azul, destaque para o teste na biblioteca onde Nameless mostra que aperfeiçoou um golpe mortal a 10 passos de distância.
Durante o filme, o Rei de Qin e o próprio Broken Sword lembram da invasão do palácio e da luta deles com espadas, o destaque fica com os panos verdes do salão do palácio caindo, a cor predominante desta cena é o verde.
E a última seqüência é a branca, quando Nameless conta como tudo realmente aconteceu.
Em cada um destes trechos, o diretor utilizou as cores para enfatizar o que estava acontecendo e consequentemente tornou as cenas mais belas ainda. Podemos dizer que na visão do diretor: a imaginação é cinza, a mentira e a paixão são vermelhas, o palpite é azul, a lembrança é verde e a verdade é branca.
No mundo ocidental o folclore é baseado em lobisomens, vampiros, bruxas, magos, sacis, mulas sem cabeça, entre outros; já no oriente o folclore está baseado em grandes mestres das artes marciais, que pulavam tão alto que pareciam que estavam voando, se moviam tão rápido que pareciam andar sobre a água, moviam suas espadas tão velozmente que mal se podia ver o golpe fatal a exterminar mais um inimigo.
Agora, já que a tecnologia permite filmar lutadores em tais movimentos folclóricos, por que não o faze-lo? O resultado de uma boa cena de luta, bem dirigida, é quase poético.
Vencido este primeiro preconceito podemos analisar os maiores clássicos deste gênero de filme. O filme Ying Xiong (2002) (http://www.imdb.com/title/tt0299977/) aqui conhecido como “Herói” conseguiu juntar num só filme: uma história épica, a lenda da unificação da China, ótimas cenas de luta, (by Jet Li), excelente direção (com auxílio de Quentin Tarantino) e fotografia impecável (estado da arte).
Já li muitas críticas políticas sobre o filme por que mostra um rei tentando trazer a paz ao povo através da guerra. Particularmente, apesar da idéia de um tirano dizimar uma cultura com o intuito de unificação ser ruim, a idéia de mafiosos sicilianos clamando por eterna vendetta, ou o ódio milenar entre árabes e judeus é muito pior. Esse dilema me faz lembrar a frase: “É melhor um final horroroso do que um horror sem fim.” Opiniões políticas a parte, o filme é muito mais que isso, o filme mostra a unificação da China de uma forma romântica, e não política.
O primeiro aspecto que chama a atenção no filme é a sabedoria do Rei de Qin. Não é a toa que ele se tornou o rei, provavelmente ele era o melhor preparado para o cargo. Durante todo o filme ele demonstrou sua sabedoria: percebeu que Nameless estava mentindo e tinha intenção assassina, depois descobriu que o mesmo hesitara, se mostrou indignado ao saber que a língua de seu país possuía dezenas de formas de escrita possíveis para uma mesma palavra, o que é inconcebível para uma comunicação eficiente, afirmando assim seu intento unificador, mostrou-se muito habilidoso com a espada ao lutar com Broken Sword, em pouco tempo de análise interpretou corretamente os três níveis que a palavra espada pode atingir, fez suposições muito próximas da verdade sobre a morte dos três assassinos, convenceu com sua sabedoria e confiança Nameless a não concluir o assassinato oferecendo sua espada e virando de costas, mostrou-se homem de honra ao mandar matar Nameless, mesmo sabendo que ele se arrependera de sua vingança e que poderia se tornar um poderoso aliado. Enfim, um verdadeiro líder.
Outro personagem forte é Broken Sword, a maneira como atingiu o domínio sobre a espada através do treino e através do estudo da caligrafia é um ótimo exemplo de que para atingir excelência num campo de conhecimento é fundamental ter uma postura multidisciplinar. Prova disso é que após dominar a arte da espada e a caligrafia, pelo poder da associação ele passou a entender também de política.
Podemos ver na cena em que Broken Sword cruza a espada com o Rei de Qin, que somente ao usar a espada ele compreende o terceiro nível de significado da palavra espada, que remete a política e faz com que ele naquele momento desista de matar o Rei de Qin, pois compreende que seu intento unificador é nobre e não deve ser interrompido.
O momento em que Nameless comenta que a luta com Sky aconteceu em suas mentes é um claro exemplo de que num sistema, uma vez conhecidas as variáveis e as leis que as regem, é possível prever qualquer experimentação, ou seja, quando as habilidades dos dois lutadores são conhecidas, é possível prever o que vai acontecer numa luta entre os dois.
Nameless chegou à sabedoria de outra forma, respeitando a opinião de alguém com maior capacidade que ele. Durante o filme ele reconhece que Broken Sword era mais habilidoso e sábio que ele. Nameless levou em consideração a opinião de Broken Sword, estudou a nova grafia de espada e após ouvir a interpretação do Rei de Qin sobre o ideograma conclui também que ele não podia interromper o intento unificador do Rei de Qin.
Já Flying Snow, apesar do treino com a espada, o estudo da caligrafia e do breakthrough de seu companheiro Broken Sword, ela não atingiu a sabedoria por que estava vedada pelo desejo de vingança, um claro exemplo de como uma postura emocional influencia um processo intelectual racional.
Moon, que aparentemente tem um papel secundário, foi fundamental em todas as versões da história, mostrando-se fiel ao seu mestre, porém mostrando imaturidade ao reagir emocionalmente em alguns momentos, reação típica de uma aprendiz com uma longa jornada pela frente.
A honra sempre presente nos filmes de cultura oriental aparece várias vezes no filme, por exemplo, quando Broken Sword não defende o golpe mortal de Flying Snow, quando Nameless não foge do palácio e praticamente espera ser exterminado para não atrapalhar o intento unificador do Rei de Qin, mas a minha cena favorita de honra no filme é quando o mestre da escola de caligrafia volta pra sua cadeira e começa a praticar caligrafia embaixo da chuva de flechas e seus pupilos voltam para seus lugares e fazem o mesmo. Na cultura ocidental esse professor seria o pior carrasco de qualquer escola.
A trilha sonora do filme, genuinamente chinesa e suavemente dramática combina perfeitamente com os esplêndidos cenários de várias partes da China. O músico cego no clube de Go (por aqui traduziram como xadrez, não está muito longe da realidade, pois Go é um jogo também complexo e muito comparado com xadrez) embala com leveza a luta que ocorre na mente de Nameless e Sky.
E pra completar este roteiro cheio de padrões, o diretor resolveu incrementar as belíssimas tomadas nos cenários mais belos da China: deserto, montanha, lagoa, campo e floresta com cores em destaque para cada parte do filme. O resultado é de uma beleza plástica nunca antes vista e dificilmente superável.
A primeira cena onde é destacada uma cor é quando Nameless conta que sua luta com Sky aconteceu em suas mentes e a cor destacada é o cinza, o cenário é o clube de Go embaixo de uma leve chuva.
A próxima cena é vermelha, nela Nameless narra uma história inventada sobre as mortes de Broken Sword, Moon e Flying Snow e o triângulo entre eles. Destaque para a morte de Moon, com um fundo cheio de árvores com folhas amareladas caindo por causa do Outono. A cena virou até comercial de impressora.
Na seqüência o Rei de Qin descobre que Nameless estava mentindo e narra seu palpite sobre o que aconteceu, a cor destacada é o azul, destaque para o teste na biblioteca onde Nameless mostra que aperfeiçoou um golpe mortal a 10 passos de distância.
Durante o filme, o Rei de Qin e o próprio Broken Sword lembram da invasão do palácio e da luta deles com espadas, o destaque fica com os panos verdes do salão do palácio caindo, a cor predominante desta cena é o verde.
E a última seqüência é a branca, quando Nameless conta como tudo realmente aconteceu.
Em cada um destes trechos, o diretor utilizou as cores para enfatizar o que estava acontecendo e consequentemente tornou as cenas mais belas ainda. Podemos dizer que na visão do diretor: a imaginação é cinza, a mentira e a paixão são vermelhas, o palpite é azul, a lembrança é verde e a verdade é branca.
