sexta-feira, 30 de abril de 2010

Diretores #004 - Richard Linklater - Before Sunrise


Jesse, vivido por Ethan Hawke, um jovem americano que está viajando de trem de Budapeste para Viena encontra casualmente Celine, vivida por Julie Delpy, uma estudante francesa que está voltando pra sua casa em Paris. Os dois são os protagonistas do filme Before Sunrise (http://www.imdb.com/title/tt0112471/) dirigido e escrito por Richard Linklater.


Ele a convence a desembarcar em Viena para passarem o dia juntos antes de retornarem aos seus destinos finais, e gradativamente vão se envolvendo em uma paixão crescente. Mas existe uma verdade inevitável: no dia seguinte ela pegará o trem para Paris e ele um avião para os Estados Unidos. Com isso, resta aos dois aproveitar da melhor maneira possível o tempo que lhes resta juntos.


Em um filme com elenco de dois atores, ou seja, apenas dois personagens, o roteiro passa a ser o grande responsável pelo seu sucesso ou fracasso. Nesse caso sucesso, Richard Linklater, conseguiu reproduzir de forma fidedigna o espírito de um mochilão pela Europa, além de criar diálogos que entretém o público nos 90 minutos do filme. A dinâmica dos dois atores juntos também foi fundamental.


Eles começam a passear a pé pela cidade, passando por alguns pontos turísticos importantes da cidade e alguns lugares nem tão conhecidos assim, passeio estilo mochilão mesmo. Entre um traslado e outro além de apreciar a paisagem a única distração possível é conversar. O teor de suas conversas é principalmente sobre seus receios e temores sobre relacionamentos, como eles observavam o fracasso de vários relacionamentos e como eles, jovens que são, gostariam de não cair nessas armadilhas da vida. Conversaram sobre assuntos mais profundos também, como a morte, desde Jesse mencionando a aparição da falecida avó na sua infância, até a visita a um cemitério de indigentes. Obviamente isso colaborou para a relação de afeto crescente entre os dois durante o filme, quanto mais delicado é o assunto, mais íntimos eles ficavam e conseqüentemente mais ligados um ao outro.


O cenário é a bela Viena, bem no centro da Europa e cortada pelo Danúbio, a trilha sonora é de música clássica, mas bem que poderia ser Kraftwerk, possivelmente Europe Endless do clássico álbum Trans-Europe Express. No café noturno em Viena, o diretor começa a cena mostrando a composição de várias mesas, cada uma com pessoas de várias origens, falando várias línguas, conforme mencionado na música Trans-Europe Express do mesmo álbum. A ótima cena continua e o casal simula que chegando em casa liga para o melhor amigo(a) para contar sobre sua viagem. No meio as declarações de amor ele descobre que ela não sentou ao seu lado por acaso no trem.


Ao longo do filme, o casal entra em contato com várias formas de arte: teatro, música, dança, poesia. Entram numa loja de discos, passeiam de roda gigante, andam por parques, praças e vielas, tornando o dia perfeito.


Perto de uma fonte, são abordados por uma cigana vidente que lê o futuro de Celine na sua mão. Depois que ela vai embora o americano zomba dos prognósticos da velha cigana, aí podemos ver claramente os estereótipos: homem cético racional e a mulher sonhadora e sentimental.


Um pouco mais a frente, Celine reclama do comportamento de Jesse em relação ao episódio da cigana, no que poderia ter sido a “primeira briga” deles. Nesse momento o casal é abordado por um poeta / mendigo que se oferece a escrever um poema em troca de alguns trocados. A aparição deste poeta serve para quebrar o gelo da pequena discussão deles, mas logo após eles ouvirem a declamação do poema, Jesse tenta bancar o cético novamente, dizendo que obviamente o poema já estava pronto e que eles haviam sido enganados, mas logo lembra que essa postura gerou a “primeira briga” deles, e desiste de insistir e aproveita a magia do momento. Aqui vale a máxima: amar não significa estar com a razão 100% das vezes, e que para viver em harmonia com alguém, as pessoas tem que ceder em suas opiniões algumas vezes. Aparentemente isso pode parecer ruim, desistir de algo de que se está convicto, mas os fins justificam os meios, vale a pena fazer pequenas concessões em pró da sinergia de um casal.


O final não é o clímax do filme, mas é sem dúvida um dos melhores finais de filme que eu já vi. Eles vão para a estação de trem (Wien Westbahnhof) se despedem apaixonadamente e se comprometem a se encontrar de novo em 6 meses.


Na sequência, as cenas onde eles compartilharam momentos juntos durante a noite previamente mostradas no escuro agora são mostradas vazias e iluminadas pelo Sol nascente. De alguma forma a mensagem passada é que aqueles lugares ficarão na memória deles e ao mesmo tempo a história deles passará a fazer parte da história dos lugares, esse é um dos grandes atrativos das cidades européias, elas são repletas de história.


Aparece pela última vez os dois indo embora, ela no trem e ele num ônibus para o aeroporto, a trilha sonora podia ser a música Franz Schubert do mesmo álbum do Kraftwerk. Ao se separar de uma pessoa amada, a pior parte é o traslado pra casa. Lembro-me muito bem de deixar minha namorada em sua casa nos domingos a noite e depois pegar estrada para ir para o interior, parecia que a minha vontade de ficar ali exercia uma força que me atraía de volta tornando a Dutra cada vez mais longa; depois disso chegando em casa era só retomar a vida normalmente se ocupando de coisas corriqueiras como lavar louça, limpar o aquário, assistir os gols da rodada na TV, jogar playstation e assim por diante; me ocupando de coisas para enganar a saudade.


O filme acaba. Um pouco de suspense fica no ar. Eles se reencontrarão em 6 meses? Não importa, a beleza não está no suspense, o que importa é o que aconteceu nessas horas que eles passaram juntos. Quanto ao suspense, qual o intuito de saber o que acontece depois? Não é realmente necessário, o importante do filme é a história e não o final. De forma equivocada, muita gente só gosta de filmes ou livros com finais felizes (viveram felizes para sempre), tragédias, ou finais surpreendentes e reveladores. Um filme de ótimo conteúdo não precisa recorrer a estes artifícios para ser considerado bom, ele se sustenta apenas pela sua história, e quando ela acaba o filme simplesmente termina.


Seguem cenas mencionadas do filme:


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http://www.youtube.com/watch?v=Ew3XL_fE-M0


Segue a letra das duas (Franz Schubert é instrumental) músicas do Kraftwerk mencionadas:


Europe endless
http://www.youtube.com/watch?v=Gv071rEXDL0



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Europe endless
Endless endless endless endless


Europe endless
Endless endless endless endless


Life is timeless
Europe endless
Life is timeless
Europe endless


Europe endless
Endless endless endless endless
Europe endless
Endless endless endless endless


Parks, hotels and palaces
Europe endless
Parks, hotels and palaces
Europe endless


Promenades and avenues
Europe endless
Real life and postcard views
Europe endless


Europe endless
Endless endless endless endless
Europe endless
Endless endless endless endless


Elegance and decadence
Europe endless
Elegance and decadence
Europe endless



Trans Europa Express
Trans Europa Express
Trans Europa Express
Trans Europa Express


Rendez-vous auf den Champs Elysees
Verlass Paris am Morgen mit dem TEE
In Wien sitzen wir im Nachtcafe
Direkt Verbindung TEE
Wir laufen 'rein in Düsseldorf City
Und treffen Iggy Pop und David Bowie
Trans Europa Express


Trans-Europe Express
Trans-Europe Express
Trans-Europe Express
Trans-Europe Express


Rendezvous on Champs-Elysees
Leave Paris in the morning on T.E.E.
Trans-Europe Express
Trans-Europe Express
Trans-Europe Express
Trans-Europe Express


In Vienna we sit in a late-night cafe
Straight connection, T.E.E.
Trans-Europe Express
Trans-Europe Express
Trans-Europe Express
Trans-Europe Express


From station to station
back to Dusseldorf City
Meet Iggy Pop and David Bowie
Trans-Europe Express


Trans-Europe Express
Trans-Europe Express
Trans-Europe Express


Franz Schubert
http://www.youtube.com/watch?v=lu8jv-mow9c&feature=related


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Segue a poesia escrita à beira do Danúbio:


Daydream, delusion, limousine, eyelash
Oh baby with your pretty face
Drop a tear in my wineglass
Look at those big eyes
See what you mean to me
Sweet-cakes and milkshakes
I'm delusion angel
I'm fantasy parade
I want you to know what I think
Don't want you to guess anymore
You have no idea where I came from
We have no idea where we're going
Latched in life
Like branches in a river
Flowing downstream
Caught in the current
I'll carry you
You'll carry me
That's how it could be
Don't you know me?
Don't you know me by now?

Diretores #003 - Richard Linklater - Before Sunset




Nove anos depois Celine e Jesse voltam as telas, a história deles teve uma continuação: Before Sunset (http://www.imdb.com/title/tt0381681/) foi filmado apesar do primeiro filme não ter sido um sucesso de bilheteria.


Jesse, que se tornou escritor, está em Paris promovendo o seu bem sucedido livro. É um livro que conta a história de um casal que vive um romance de uma noite em Viena, após se conhecerem em um trem. Após uma entrevista coletiva numa livraria, Celine encontra Jesse, e os dois têm pouco mais de uma hora para conversar antes que Jesse pegue um avião as 19:30 de volta para os estados Unidos.


Before Sunset é muito parecido com Before Sunrise, pois todos os elementos que funcionaram no primeiro foram repetidos: eles se encontram, andam pela cidade (nesse caso Paris), sentam em um café, andam por um jardim, passeiam de barco e conversam durante todo o filme, e o encontro tem hora para acabar.


Neste filme os protagonistas estão mais maduros e ao invés de conversar sobre seus anseios sobre o futuro, conversam sobre suas frustrações e as armadilhas que a vida pregaram neles, inclusive o fato de não terem se encontrado 6 meses depois daquela noite que passaram juntos em Viena. No primeiro filme eles começam a conversar sobre um casal alemão que está brigando e fica claro como eles tem certeza que com eles será diferente, mas não foi. Nove anos depois vemos que a juventude deles se foi, afinal ser jovem é acreditar que com você a história será diferente.


O elemento mais marcante deste filme é a proximidade com a realidade. As belas paisagens de Paris, o Sol se pondo; o fato de o tempo que os personagens ficaram sem se ver ser o mesmo entre o lançamento dos dois filmes; e o fato do filme ter sido filmado em tempo real, ou seja, cada minuto de filme equivale a um minuto no tempo do filme, não existem cortes.


Ainda na mesma linha, são poucos os filmes em que os atores agem tão naturalmente que o resultado final parece que os personagens são pessoas reais, e os acontecimentos foram registrados sem o conhecimento deles. Isso acontece quando a personalidade dos atores é muito parecida com a personalidade dos personagens. O envolvimento da vida pessoal dos dois artistas na trama tornou a história muito mais real.


E Ethan Hawke e Julie Delpy se envolveram na produção do filme? Muito, foram eles que escreveram o roteiro e os diálogos junto com diretor Richard Linklater e a produtora Kim Krizan. Julie Delpy compôs e deu voz à três canções da trilha sonora. O homem e a mulher com quem a personagem Celine conversa no pátio do prédio são os pais da atriz na vida real: Albert Delpy e Marie Pillet. E por fim, durante o filme Jesse conta a Celine que se casou por ter engravidado sua namorada, que tiveram um filho juntos e quatro anos depois a relação do casal era puramente por conveniência e obrigação de criar o filho da melhor maneira possível; pois bem, isso é exatamente o que aconteceu com Ethan Hawke que casou com a atriz Uma Thurman por ela ter engravidado e se separou depois de 4 anos.


Acho que não sobram dúvidas sobre o envolvimento dos atores no roteiro do filme. Também me arrisco a escrever que o primeiro filme influenciou muito a vida dos dois atores.


As cenas mais marcantes do filme são mais para o final. No barco navegando no Sena Jesse confessa que só escreveu o livro pois era a única chance que ele tinha de talvez reencontrá-la. Ela responde como sente falta de cada pequeno detalhe nele.


Eles seguem para o carro e primeiro ela de forma paranóica conta como é infeliz e está frustrada por ele aparecer apenas 9 anos depois, casado e com um filho. Depois disso ele desabafa sobre seu desafortunado casamento enquanto olha para a rua, ela estica o braço para confortá-lo num afago mas de repente encolhe o braço quando ele se vira e a encara. Neste momento ela percebe o quanto ele também está infeliz.


Já em casa Celine canta a Valsa para Jesse. Nesta altura dos acontecimentos os dois não têm dúvida do quão importante foi aquela noite em Viena. O constrangimento da situação gera uma tensão sexual crescente.


E mais uma vez o final é perfeito. Após a valsa ela serve o chá e fala que ele vai perder o avião. Ele, mexendo na aliança, responde: “eu sei”, remetendo o dilema explicado por ele aos jornalistas no início do filme. Será que ele pensa no filho e vai embora? Será que ele fica? Se ele fica será que eles continuam se dando tão bem quanto supõem? Ou ele fica e vivem felizes para sempre? Mais uma vez não importa, por isso o filme termina.


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Links do Youtube:




A música que os personagens escutam no apartamento de Celine é "Just in Time" do cd duplo "The Tomato Collection", de Nina Simone.


Nina Simone - Just In Time


Let's go


Just in time you've found me just in time
Before you came my time was running low
I was lost the losing dice were tossed
My bridges all were crossed nowhere to go
Now you hear now I know just where I'm going
No more doubt of fear I've found my way
For love came just in time you've found me just in time
And changed my lonely nights that lucky day


Just in time


Before you came my time was running low oh baby
I was lost the losing dice were tossed
My bridges all crossed nowhere to go
Now you hear now I know just where I'm going
No more doubt of fear I've found my way
For love came just in time you've found me just in time
And changed my lonely nights and changed my lonely nights
And changed my lonely nights and changed my lonely nights
And changed my lonely nights that lucky day




Julie Delpy - A Waltz For a Night


Let me sing you a waltz
Out of nowhere, out of my thoughts
Let me sing you a waltz
About this one night stand


You were for me that night
Everything I always dreamt of in life
But now you're gone
You are far gone
All the way to your island of rain


It was for you just a one night thing
But you were much more to me
Just so you know


I hear rumors about you
About all the bad things you do
But when we were together alone
You didn't seem like a player at all


I don't care what they say
I know what you meant for me that day
I just wanted another try
I just wanted another night
Even if it doesn't seem quite right
You meant for me much more
Than anyone I've met before


One single night with you little Jesse
Is worth a thousand with anybody


I have no bitterness, my sweet
I'll never forget this one night thing
Even tomorrow, another arms
My heart will stay yours until I die


Let me sing you a waltz
Out of nowhere, out of my blues
Let me sing you a waltz
About this lovely one night stand

domingo, 25 de abril de 2010

Compositores #005 - Gianni Schicchi de Puccini

Gianni Schicchi é uma ópera cômica em um ato do compositor italiano Giacomo Puccini (http://pt.wikipedia.org/wiki/Giacomo_Puccini), baseado no Canto XXX do Inferno, da Divina Comédia (http://pt.wikipedia.org/wiki/Divina_Comédia) do poeta Dante Alighieri (http://pt.wikipedia.org/wiki/Dante_Alighieri).


A Divina Comédia é um poema épico considerado uma das maiores obras da literatura mundial, e é dividida em três livros: Inferno, Purgatório e Paraíso. Nesses livros Dante descreve com detalhes a sua visão de céu e inferno e passa a idéia de que o Universo era dividido em círculos concêntricos, tipicamente como o modelo geocêntrico da Idade Média. Outra curiosidade que comprova a importância da obra é que séculos mais tarde na unificação da Itália, a toscana foi escolhida como língua oficial do país uma vez que Divina Comédia estava escrita no dialeto.


Boticelli e Salvador Dali criaram ilustrações sobre a obra:
http://www.ratbags.com/rsoles/artworks/dali/divinecomedy.htm
http://benatlas.com/2009/07/divina-commedia-by-sandro-botticelli/


Na obra, Dante acabou colocando seus desafetos sendo punidos no inferno. Um deles era Gianni Schicchi, cidadão de Florença, que teria falsificado o testamento de Buoso Donati (parente de sua esposa Gemma Donati), deixando a maior parte dos bens de Buoso, que morreu a 1 de setembro de 1299, para a família Schicchi.


Baseado nesta história, o libretto da ópera mostra de forma cômica a encenação da morte de Buoso Donati e a verdadeira motivação de Gianni Schicchi ter falsificado o testamento, numa tentativa de reverter a moral de Gianni Schicchi, fazendo com que o espectador julgue se o personagem deveria mesmo ir par o inferno ou não, como julgou Dante. A "moral" é segundo o chavão que o brasileiro adora ao justificar as coisas erradas que faz: ladrão que rouba de ladrão merece perdão.


Buoso Donati teria enriquecido de forma ilícita e ao final da vida estando arrependido fez um testamento deixando a maior parte de seus bens para os frades do convento de Santa Reparata. No dia de sua morte, 1 de setembro de 1299, seu quarto está repleto de parentes fingindo a tristeza da perda do patriarca da família, no entanto estão apenas de olho na farta herança. Inconformados com o testamento, Rinunccio com o intuito de conseguir permissão para se casar com Lauretta sugere que o testamento seja falsificado com a ajuda de Gianni Schicchi, um jurista da cidade. Este topa a empreitada, se disfarça do falecido Buoso Donati enquanto os familiares escondem seu corpo, mas quando o tabelião chega a casa para mudar o testamento, Gianni Schicchi se aproveita da situação e faz com que a maioria dos bens de Buoso Donati fiquem para sua família.


Segue a sinopse completa da ópera:
http://opera.stanford.edu/Puccini/GianniSchicchi/synopsis.html


A ópera tem por volta de meia hora apenas, e todos os personagens ficam praticamente o tempo todo em cena e muitas vezes cantam juntos; o que aparentemente pode parecer uma bagunça é uma perfeita harmonia; durante toda a obra é possível entender o que todos os personagens estão sentindo e pensando. É uma ótima obra pra quem nunca assistiu uma ópera e pretende começar.


Sua ária mais famosa é “O mio babbino caro” quando Lauretta suplica ao pai Gianni que permita seu casamento com Rinnuncio. Segue a letra:


O mio babbino caro
O mio babbino caro
Mi piace, è bello, bello
Vo' andare in Porta Rossa
a comperar l'anello!
Sì, sì, ci voglio andare!
e se l'amassi indarno,
andrei sul Ponte Vecchio,
ma per buttarmi in Arno!
Mi struggo e mi tormento!
O Dio, vorrei morir!
Babbo, pietà, pietà!
Babbo, pietà, pietà!


Segue a ária “O mio babbino caro” interpretada por Maria Callas:

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Nas duas primeiras interpretações em apresentações solo vemos duas sinceras declarações de amor, já na terceira que está ambientada na ópera, além da declaração de amor, podemos observar um pouco de drama no pedido de filha mimada ao pai. Essa é a graça de assistir uma ópera, combinar literatura, teatro, música e as vezes até dança para contar uma história com todos os detalhes e emoções envolvidos; o resultado é maravilhoso.


Outro detalhe que me chamou atenção foi que já em 1299 o Ponte Vecchio já tinha esse nome, ou seja, já era velho. Segue a história deste belíssimo ponto turístico de Florença: (http://en.wikipedia.org/wiki/Ponte_Vecchio)

A seguir o texto do Canto XXX do Inferno:


Nel tempo che Iunone era crucciata
per Semelè contra ‘l sangue tebano,
come mostrò una e altra fiata,


Atamante divenne tanto insano,
che veggendo la moglie con due figli
andar carcata da ciascuna mano,


gridò: «Tendiam le reti, sì ch’io pigli
la leonessa e ‘ leoncini al varco»;
e poi distese i dispietati artigli,


prendendo l’un ch’avea nome Learco,
e rotollo e percosselo ad un sasso;
e quella s’annegò con l’altro carco.


E quando la fortuna volse in basso
l’altezza de’ Troian che tutto ardiva,
sì che ‘nsieme col regno il re fu casso,


Ecuba trista, misera e cattiva,
poscia che vide Polissena morta,
e del suo Polidoro in su la Riva


del mar si fu la dolorosa accorta,
forsennata latrò sì come cane;
tanto il dolor le fé la mente torta.


Ma né di Tebe furie né troiane
si vider mai in alcun tanto crude,
non punger bestie, nonché membra umane,


quant’io vidi in due ombre smorte e nude,
che mordendo correvan di quel modo
che ‘l porco quando del porcil si schiude.


L’una giunse a Capocchio, e in sul nodo
del collo l’assannò, sì che, tirando,
grattar li fece il ventre al fondo sodo.


E l’Aretin che rimase, tremando
mi disse: «Quel folletto è Gianni Schicchi,
e va rabbioso altrui così conciando».


«Oh!», diss’io lui, «se l’altro non ti ficchi
li denti a dosso, non ti sia fática
a dir chi è, pria che di qui si spicchi».


Ed elli a me: «Quell’è l’anima ântica
di Mirra scellerata, che divenne
al padre fuor del dritto amore amica.


Questa a peccar con esso così venne,
falsificando sé in altrui forma,
come l’altro che là sen va, sostenne,


per guadagnar la donna de la torma,
falsificare in sé Buoso Donati,
testando e dando al testamento norma».


E poi che i due rabbiosi fuor passati
sovra cu’ io avea l’occhio tenuto,
rivolsilo a guardar li altri mal nati.


Io vidi un, fatto a guisa di leuto,
pur ch’elli avesse avuta l’anguinaia
tronca da l’altro che l’uomo ha forcuto.


La grave idropesì, che sì dispaia
le membra con l’omor che mal converte,
che ‘l viso non risponde a la ventraia,


facea lui tener le labbra aperte
come l’etico fa, che per la sete
l’un verso ‘l mento e l’altro in sù rinverte.


«O voi che sanz’alcuna pena siete,
e non so io perché, nel mondo gramo»,
diss’elli a noi, «guardate e attendete


a la miseria del maestro Adamo:
io ebbi vivo assai di quel ch’i’ volli,
e ora, lasso!, un gocciol d’acqua bramo.


Li ruscelletti che d’i verdi colli
del Casentin discendon giuso in Arno,
faccendo i lor canali freddi e molli,


sempre mi stanno innanzi, e non indarno,
ché l’imagine lor vie più m’asciuga
che ‘l male ond’io nel volto mi discarno.


La rigida giustizia che mi fruga
tragge cagion del loco ov’io peccai
a metter più li miei sospiri in fuga.


Ivi è Romena, là dov’io falsai
la lega suggellata del Batista;
per ch’io il corpo sù arso lasciai.


Ma s’io vedessi qui l’anima trista
di Guido o d’Alessandro o di lor frate,
per Fonte Branda non darei la vista.


Dentro c’è l’una già, se l’arrabbiate
ombre che vanno intorno dicon vero;
ma che mi val, c’ho le membra legate?


S’io fossi pur di tanto ancor leggero
ch’i’ potessi in cent’anni andare un’oncia,
io sarei messo già per lo sentiero,


cercando lui tra questa gente sconcia,
con tutto ch’ella volge undici miglia,
e men d’un mezzo di traverso non ci ha.


Io son per lor tra sì fatta famiglia:
e’ m’indussero a batter li fiorini
ch’avevan tre carati di mondiglia».


E io a lui: «Chi son li due tapini
che fumman come man bagnate ‘l verno,
giacendo stretti a’ tuoi destri confini?».


«Qui li trovai - e poi volta non dierno - »,
rispuose, «quando piovvi in questo greppo,
e non credo che dieno in sempiterno.


L’una è la falsa ch’accusò Gioseppo;
l’altr’è ‘l falso Sinon greco di Troia:
per febbre aguta gittan tanto leppo».


E l’un di lor, che si recò a noia
forse d’esser nomato sì oscuro,
col pugno li percosse l’epa croia.


Quella sonò come fosse un tamburo;
e mastro Adamo li percosse il volto
col braccio suo, che non parve men duro,


dicendo a lui: «Ancor che mi sia tolto
lo muover per le membra che son gravi,
ho io il braccio a tal mestiere sciolto».


Ond’ei rispuose: «Quando tu andavi
al fuoco, non l’avei tu così presto;
ma sì e più l’avei quando coniavi».


E l’idropico: «Tu di’ ver di questo:
ma tu non fosti sì ver testimonio
là ‘ve del ver fosti a Troia richesto».


«S’io dissi falso, e tu falsasti il conio»,
disse Sinon; «e son qui per un fallo,
e tu per più ch’alcun altro demonio!».


«Ricorditi, spergiuro, del cavallo»,
rispuose quel ch’avea infiata l’epa;
«e sieti reo che tutto il mondo sallo!».


«E te sia rea la sete onde ti crepa»,
disse ‘l Greco, «la lingua, e l’acqua Márcia
che ‘l ventre innanzi a li occhi sì t’assiepa!».


Allora il monetier: «Così si squarcia
la bocca tua per tuo mal come suole;
ché s’i’ ho sete e omor mi rinfarcia,


tu hai l’arsura e ‘l capo che ti duole,
e per leccar lo specchio di Narcisso,
non vorresti a ‘nvitar molte parole».


Ad ascoltarli er’io del tutto fisso,
quando ‘l maestro mi disse: «Or pur mira,
che per poco che teco non mi risso!».


Quand’io ‘l senti’ a me parlar con ira,
volsimi verso lui con tal vergogna,
ch’ancor per la memoria mi si gira.


Qual è colui che suo dannaggio sogna,
che sognando desidera sognare,
sì che quel ch’è, come non fosse, agogna,


tal mi fec’io, non possendo parlare,
che disiava scusarmi, e scusava
me tuttavia, e nol mi credea fare.


«Maggior difetto men vergogna lava»,
disse ‘l maestro, «che ‘l tuo non è stato;
però d’ogne trestizia ti disgrava.


E fa ragion ch’io ti sia sempre allato,
se più avvien che fortuna t’accoglia
dove sien genti in simigliante piato:
ché voler ciò udire è bassa voglia».

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Pintores #003 - Edward Hopper e a melancolia

Edward Hopper (1882, 1967) foi um pintor americano do período realista. A primeira vista suas obras nada mais são do que representações do cotidiano e do estilo de vida norte americano de sua época, mas ao analisar os quadros com maior profundidade descobrimos paisagens rurais e urbanas repletas de melancolia, evidenciando que a sociedade americana estava entornada em uma grande depressão na primeira metade do século XX.

Antes de analisar sua obra seria interessante entender melhor o que é a melancolia e a situação político social histórica dos Estados Unidos no período em questão.

Segundo Freud a melancolia é um processo mental parecido com o luto, porém a causa não é necessariamente uma perda real e sim uma ausência de algo que nem sempre se sabe o que é ao certo, um inexplicável sentimento de auto-acusação ou culpa que resulta na apatia e pessimismo constantes, tudo deixa de ser interessante, a vida perde o encanto e o brilho, em casos extremos perde-se a vontade de viver. Pessoas com sintomas de melancolia costumam se sentir inúteis, incapazes e insignificantes, se auto-sabotando e minando totalmente a própria auto-estima.

As causas da melancolia podem ser muitas, entre elas estão os desafios da vida moderna, a correria das grandes cidades, o marasmo da rotina, a descrença nas pessoas, ou na política, ou numa religião, ou nas leis e assim por diante, a privação de liberdade, por exemplo por um inverno rigoroso que obrigue as pessoas a se trancafiarem em suas casas por longos períodos, freqüentar lugares escuros e sombrios, o fracasso numa empreitada ou a perda de uma oportunidade, e a nostalgia, ou seja, a saudade de uma época que não volta mais.

A melancolia sempre permeou a arte e a cultura. Na literatura vemos claros traços de melancolia nos movimentos Niilismo (http://pt.wikipedia.org/wiki/Niilismo) e no Byronismo (http://pt.wikipedia.org/wiki/Romantismo#Byronismo). O próprio Raskolnikov de Crime e Castigo de Dostoyevsky padece de melancolia durante todo o livro: “Se Deus está morto então tudo é permitido.”

Na pintura, não podemos deixar de mencionar as obras de Picasso da fase azul. Nelas, o pintor espanhol usa a cor azul para exaltar o sofrimento e solidão dos personagens de seus quadros.

Já os escravos africanos levados aos Estados Unidos moldaram sua cultura ao ambiente frio e doloroso da vida nas plantações de algodão e criaram o Blues, que além de ser uma forma musical que utiliza uma estrutura repetitiva, passou a ser sinônimo do estado de espírito dos escravos que para aliviar o “banzo” e o desgaste físico e psicológico das intermináveis e desgastantes jornadas colhendo algodão entoavam cânticos exaltando o próprio sofrimento.

Seguindo nos EUA, tivemos a Primeira Guerra Mundial (1914-1919), a crise econômica de 1929 seguida da Grande Depressão e depois a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

E não acaba por aí, podemos concluir que os Estados Unidos continuou assolado em melancolia com famoso o caso do assassinato de Kitty Genovese (http://en.wikipedia.org/wiki/Kitty_Genovese) em 1964. Esse caso ficou muito famoso entre outras coisas por causa de uma manchete no NY Times que dizia: "Thirty-Eight Who Saw Murder Didn't Call the Police.". A manchete gerou grande comoção popular, fazendo com que todos os cidadões se perguntassem o por que de tanta apatia. Sensacionalista ou não, o artigo gerou vários estudos social, psicológico e econômico, como o efeito do espectador (http://en.wikipedia.org/wiki/Bystander_effect) que é um fenômeno que diz que a probabilidade de alguém ajudar o próximo é inversamente proporcional ao número de espectadores, ou seja, quanto maior o número de espectadores, menos provável que alguém vá ajudar; a difusão da responsabilidade (http://en.wikipedia.org/wiki/Diffusion_of_responsibility) que é um fenômeno que ocorre quando não há definição clara das responsabilidades, nesses casos ninguém assume as rédeas de uma situação; sem falar na teoria dos jogos (http://en.wikipedia.org/wiki/Game_theory) onde os economistas tentaram responder a pergunta: o altruísmo realmente existe? Ou todas as pessoas somente agem por interesses próprios? Seguem mais referências:

Dilema do voluntário
http://en.wikipedia.org/wiki/Volunteer
Dictator Game
http://en.wikipedia.org/wiki/Dictator_game
Ultimatum Game
http://en.wikipedia.org/wiki/Ultimatum_game

Escravos com saudades de casa, juventudes perdidas nas duas Grandes Guerras, viúvas lamentando a perda de seus maridos em batalha, uma infinidade de trabalhadores que perderam o emprego e viram desmoronar o “Sonho Americano” de uma vida próspera; pessoas vivendo isoladas e incapazes de ajudarem o próximo, esse foi o cenário retratado por Edward Hopper.

Fechando todos os parênteses já há massa crítica suficiente para analisar a obra de Hopper, vamos a ela:
Começamos com duas paisagens rurais, o trilho do trem o mato crescendo e um vagão abandonado. Na pintura seguinte uma estrada corta a paisagem. Abaixo uma casa à beira de uma ferrovia.
Edward Hopper era fã de cinema, sofreu forte influencia de alguns diretores e posteriormente seus quadros serviram de inspiração para vários outros diretores de cinema. Neste quadro por exemplo vemos uma casa um tanto funesta à beira de uma ferrovia. Anos mais tarde este quadro inspirou Alfred Hitchcock a transformar esta casa na morada de Norman Bates num dos que se tornariam um dos maiores clássicos do cinema de todos os tempos, Psicose (http://www.imdb.com/title/tt0054215/). Vejam as semelhanças com a casa utilizada no filme:

Outras referências de Hopper nos filmes de Hitchcock estão descritos no excelente texto em: http://www.alfredhitchcockgeek.com/2009/11/hitchcocks-most-hopperesque-film-psycho.html


Nesta pintura temos uma paisagem urbana. A fachada de um prédio, algumas janelas estão abertas e ninguém anda pela lúgubre rua. Na seguinte em vista aérea ainda vemos algumas pessoas andando pela praça.

Aí você pode estar pensando, é fácil transparecer melancolia com paisagens vazias, se houvesse pessoas nestas mesmas paisagens não seria possível transparecer melancolia. Então vamos ver obras de Hopper com pessoas:



Nestas três pinturas, vemos mulheres em situações corriqueiras, o Sol invade suas casas pela janela, o olhar delas é na direção da janela, mas seus pensamentos estão muito mais longe.

Aqui voltamos para o campo, um homem cuida de um posto de gasolina na beira da estrada, provavelmente numa estrada isolada. Esta cena também influenciou muito o cinema, quantos filmes já não retrataram um lugar como este?

Aí você pode estar pensando, é fácil transparecer melancolia retratando pessoas sozinhas, isoladas, se houvesse mais pessoas nestas mesmas paisagens não seria possível transparecer melancolia. Então vamos ver obras de Hopper com mais pessoas:


Nessas duas obras, vemos uma mulher rodeada de pessoas num teatro e num vagão de trem, mas mesmo assim elas estão extremamente solitárias. Como é possível se sentir tão sozinho no meio a tanta gente?

Quando estava sem inspiração, Hopper passava horas no cinema assistindo vários filmes em procura de uma bela paisagem para retratar, acabava se inspirando na solidão das pessoas ali sentadas enfileiradas ao seu lado, mas sem esboçar nenhuma reação, tantas pessoas juntas e nenhuma comunicação.

Acima temos sua obra mais conhecida: Nighthawks. Muito se foi dito e discutido em relação a obra e não é para menos, a expressão artística é gritante. Mesmo assim eu fico com a interpretação da obra do próprio autor, que disse ter pintado um taciturno automat (cafeteria) a noite e consequentemente retratou a solidão das pessoas nas grandes cidades, o resto é pura especulação.

Aí você pode estar pensando, é fácil transparecer melancolia retratando pessoas em lugares cheios de gente que elas não conhecem, se elas estivessem com pessoas que elas conhecem não seria possível transparecer melancolia. Então vamos ver obras de Hopper com mais pessoas acompanhadas por conhecidos:

Nesta obra vemos um homem lendo o jornal enquanto a mulher, talvez sua esposa, dedilha o piano displicentemente, demonstrando uma grande apatia.

Nesta obra, uma senhora carrancuda lê um livro sentada enquanto, possivelmente o marido, fuma um cigarro enquanto perde o olhar pela janela.

Nesta pintura, vemos dois namorados na varanda num fim de tarde de verão, mas mesmo assim algo os incomoda, não há ligação entre eles.

E por fim, nesta pintura vemos um homem sentado a cama ao lado de uma mulher semi-nua, sua postura é amuada mesmo após a provável relação sexual. Em alguns casos nem mesmo a mais íntima conexão entre duas pessoas é capaz de curar o vazio de uma alma.
Na sua técnica podemos destacar a utilização da luz em contraponto com as sombras, mas nada muito além disso. Seu grande mérito mesmo está em retratar situações do cotidiano e o verdadeiro sentimento mocambúzio de seus personagens.

E nos dias de hoje os Estados Unidos já se curaram da melancolia? Eu diria que não, se seguiram as Guerras da Coréia, do Vietnam, Guerra Fria, Iraque e mais recentemente a “guerra contra o terror”. Os atentados de 11 de Setembro só vieram moldar mais uma vez a melancolia americana sempre presente em sua história numa espécie de insegurança / desconfiança. Na arte, mais recentemente bandas como The Cure, Smashing Pumpkins e Radiohead traduzem um pouco desta misantropia.

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