Cândido
Torquato Portinari (1903-1962) foi um artista plástico brasileiro. Pintou
quase cinco mil obras, e é hoje considerado um dos artistas mais prestigiados
do país e sem dúvida o pintor brasileiro a alcançar maior projeção
internacional.
Em
suas obras, o pintor conseguiu retratar questões sociais com maestria. Aproximou-se
da arte moderna européia sem perder a admiração do grande público. Suas
pinturas se aproximam do cubismo, surrealismo e sem, contudo, se distanciar
totalmente de suas raízes, da cultura local e do folclore.
Uma
das obras mais importantes de Portinari, O
lavrador de café, foi furtada do segundo andar do Museu de Arte de São Paulo na
madrugada do dia 20 de dezembro de 2007, em uma ação de três minutos. A obra foi resgatada e
restituída ao museu dia 8 de janeiro de 2008, sem sofrer avarias.
A sua obra mais importante é sem dúvida os murais Guerra e Paz que
o pintor doou a sede da ONU em Nova York na década de 1950. A obra foi muito
celebrada na época como a contribuição brasileira para a missão da ONU de
manter em paz todas as nações do mundo, porém a obra fica localizada em um
salão com acesso restrito e, portanto não foi disseminada ao grande público.
Graças aos esforços do Projeto Portinari (responsável por
catalogar toda a obra do pintor brasileiro) quando a sede da ONU anunciou em
2010 que seria reformada, o governo brasileiro conseguiu convencer os
americanos a disponibilizarem os painéis ao Projeto Portinari no Brasil para restauração.
Os painéis hoje já foram restaurados e apresentados ao público no Teatro
Municipal do Rio de janeiro. Atualmente os murais estão expostos no Memorial da
América Latina, em São Paulo para visitação com entrada franca. Depois disso,
os painéis devem seguir em turnê mundo afora para em 2013 voltarem em
definitivo para o salão da sede da ONU.
Segue uma figura dos painéis Guerra e Paz de Cândido
Portinari. Procurei colocar aqui a imagem de melhor resolução que encontrei, no
entanto nada substitui ver ao vivo estes dois painéis de 14 metros de altura por 10 metros de comprimento
cada. São 280 m²
de pintura. Aproveitem esta chance única! Vão ao Memorial da América Latina e
vejam os painéis ao vivo antes que eles voltem para a sede da ONU em Nova York,
não percam esta oportunidade!
Segue
ainda dois documentários sobre a grandiosa obra de Cândido Portinari.
Um detalhe triste desta saga brasileira é que o pintor
acabou morrendo por grave intoxicação pelo chumbo presente nas tintas que usava
nos painéis. Desobedecendo as
ordens médicas, Portinari continuava pintando e viajando com freqüência para
exposições nos EUA, Europa e Israel. No começo de 1962 a prefeitura de Milão
convida Portinari para uma grande exposição com 200 telas. Trabalhando freneticamente,
o envenenamento de Portinari começa a tomar proporções fatais. No dia 6 de
fevereiro do mesmo ano, Cândido Portinari morre envenenado pelas tintas que o
consagraram.
No dia 9 de fevereiro de 1962,
três dias após a morte de Candido Portinari, o poeta brasileiro, Carlos
Drummond de Andrade, publica o poema “A Mão”.
A MÃO
Entre o cafezal e o sonho
o garoto pinta uma estrela dourada
na parede da capela,
e nada mais resiste à mão pintora.
A mão cresce e pinta
o que não é para ser pintado mas sofrido.
A mão está sempre compondo
módul-murmurando
o que escapou à fadiga da Criação
e revê ensaios de formas
e corrige o oblíquo pelo aéreo
e semeia margaridinhas de bem-querer no baú dos
vencidos
A mão cresce mais e faz
do mundo-como-se-repete o mundo que telequeremos.
A mão sabe a cor da cor
e com ela veste o nu e o invisível.
Tudo tem explicação porque tudo tem (nova) cor.
Tudo existe porque foi pintado à feição de laranja
mágica
não para aplacar a sede dos companheiros,
principalmente para aguçá-la
até o limite do sentimento da terra domícilio do
homem.
Entre o sonho e o cafezal
entre guerra e paz
entre mártires, ofendidos,
músicos, jangadas, pandorgas,
entre os roceiros mecanizados de Israel,
a memória de Giotto e o aroma primeiro do Brasil
entre o amor e o ofício
eis que a mão decide:
Todos os meninos, ainda os mais desgraçados,
sejam vertiginosamente felizes
como feliz é o retrato
múltiplo verde-róseo em duas gerações
da criança que balança como flor no cosmo
e torna humilde, serviçal e doméstica a mão excedente
em seu poder de encantação.
Agora há uma verdade sem angústia
mesmo no estar-angustiado.
O que era dor é flor, conhecimento
plástico do mundo.
E por assim haver disposto o essencial,
deixando o resto aos doutores de Bizâncio,
bruscamente se cala
e voa para nunca-mais
a mão infinita
a mão-de-olhos-azuis de Candido Portinari.
Referências
Cândido
Portinari
Guerra
e Paz
Memorial
da América Latina
Carlos
Drummond de Andrade


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