Crítica
de arte é algo extremamente simples, mas que algumas pessoas conseguem complicar
muito. Por um lado temos leigos não interessados em aprofundar-se um pouco que
seja para entender uma obra de arte e, portanto declaram que não gostam de um
artista ou um estilo. Por outro lado, temos “especialistas” altamente
qualificados que transformam a crítica de arte em algo inteligível ao grande
público, atribuindo a uma obra de arte, diversos padrões que não passam de mera
especulação, mas que “soam” bonito.
Vocês
provavelmente já devem ter visto exemplos dos dois extremos: “Estes quadros do
Picasso são muito ruins, os rostos estão todos desfigurados!”, “Este vinho
possui notas cítricas de morango, amora, letras de carvalho envelhecido, o aroma doce de
chocolate, café e bem no finalzinho uma lembrança de queijo camembert!”.
Eu
defendo que crítica de arte não pode deixar de ter, tampouco extrapolar o
bom-senso.
Existem
ainda duas linhas de crítica de arte que valem a pena mencionar: aquela que
sugere que a primeira impressão de quem vê uma obra é a que vale. Que nenhuma
informação, sobre o artista ou a obra deve ser listada antes da primeira
apreciação da obra com o intuito de não trazer viés para a análise da obra em
si. Os que defendem esta linha estão preocupados com a influência do poder da
sugestão. Se antes de assistir um filme você lê 5 críticas falando mal do
filme, você já irá para o cinema mal intencionado a procurar os defeitos da
obra mencionados nas críticas.
A outra
linha defende que toda obra de arte tem que estar inserida num contexto, num
período, num momento histórico e numa linha de pensamento; e que todas as
informações acerca da obra devem ser levadas em consideração no momento de se
redigir uma crítica.
Utilizando
o bom-senso já mencionado, eu sou a favor sim de se apreciar uma obra sem
nenhuma informação satélite para ajudar a “entendê-la”, mas não podemos parar
por aí. Depois desta primeira impressão, devemos buscar sim informações
complementares para poder apreciar uma obra de arte num nível mais elevado.
Segue um exemplo:
Quando
assisti ao filme “Blade Runner”pela primeira vez, gostei muito do cenário, do
roteiro e da fotografia. Tempos depois fui descobrir que o diretor Ridley Scott
tinha dado ao cenário futurista um clima Noir, o que me fez pesquisar o que era
um filme Noir, também descobri que o filme tinha se baseado num livro do
escritor de ficção científica Philip K. Dick, e que detalhes como a existência
de pessoas de várias etnias na futurista Los Angeles era uma previsão do
escritor de um mundo globalizado. O filme ainda me incentivou a pesquisar mais
coisas sobre andróides e robôs, o que fez com que me interessasse pelos livros
de Isaac Asimov, as leis da robótica e anos mais tarde decidisse fazer
engenharia mecatrônica. Anos depois, com todo este background, seja dos
detalhes da produção do filme, ou do funcionamento de robôs e inteligência
artificial, assistir o filme novamente em permite reparar em detalhes que eu
não conseguia na primeira vez e, portanto apreciar esta obra de arte num nível
muito mais elevado.
Todos
os elementos para o entendimento de uma obra de arte devem estar contidos nela,
e as informações satélites devem apenas colaborar no entendimento em sua
plenitude. Agora, quando o diretor do filme, ou um pintor, compositor precisa
explicar detalhadamente a sua intenção ao fazer uma obra de arte, temos
claramente o caso de uma obra falha. Usando ainda o mesmo exemplo do filme
“Blade Runner”, eu nunca senti a necessidade de que o diretor explicasse se o
protagonista era um replicante ou não. As vezes, a beleza da obra está em gerar
a dúvida, como Machado de Assis fez em Dom Casmurro.
Além do
bom-senso, outro fator muito importante na crítica de arte é a intuição.
Intuição
nada mais é do que a capacidade do cérebro humano de, uma vez que se depara com
um problema que envolve diversas variáveis, fazer inconscientemente uma análise
rápida e dar uma direção a ser seguida, ou uma decisão a ser tomada. Esta
análise, por ser feita inconscientemente, não permite que a consciência tenha
certeza da decisão a ser tomada, e cabe ainda à consciência tomar a decisão de
acreditar na intuição ou não. Na minha experiência sobre o assunto, afirmo que
devemos sim dar crédito à nossa intuição com bastante freqüência, mesmo sem ter
certeza do resultado final, e esta característica do cérebro humano é
extremamente útil na crítica de arte. Segue um exemplo:
Quando
eu assisti pela primeira vez ao filme “2001, uma Odisséia no Espaço”, eu não
entendi quase nada, mas alguma coisa me dizia que naquele filme existiam muitas
mensagens que o diretor estava passando aos expectadores. Eu precisei ler os 4
livros da série escritos pelo Arthur C. Clarke, descobrir que por trás de todo
o simbolismo do filme estava a teoria do Ubbermensch de Nietzsche. O filme é
mesmo uma das maiores obras de arte da história do cinema, a minha intuição
estava certa. Só expandindo o conceito, o mesmo aconteceu quando vi pela
primeira vez os quadros cubistas de Pablo Picasso e os quadros surrealistas de Salvador
Dali. O mesmo aconteceu com o quadro acima de Rene Magritte, eu ainda não
entendi 100% qual foi a intenção do pintor nesta obra, mas minha intuição me
diz que a intenção dele foi nobre e que a execução foi bem feita.
E por
último, na crítica de arte é fundamental o aprofundamento. Mas acredito que
este fator já está bem exemplificado no contexto dos demais.
Resumindo,
para se fazer uma boa crítica de arte é necessário seguir a sua intuição (se
possível de um primeiro impacto sobre a obra), ter curiosidade para se
aprofundar no assunto e ter bom senso para separar as informações relevantes
acerca da obra e do artista estudado antes de formar a sua própria opinião.
Simples assim.
Uma
caricatura sobre crítica de arte é exposta neste episódio de Seinfeld. O quadro
The Kramer foi pintado por uma namorada de Seinfeld. Kramer é o vizinho maluco
de Seinfeld, que alterna momentos de paranóia e lucidez.
"I
sense great vulnerability. A
man-child crying out for love. An innocent orphan in the post-modern world."
"I see a parasite. A sexually depraved
miscreant who is seeking only to gratify his basest and most immediate
urges."
"His struggle is man's struggle. He lifts
my spirit."
"He is a loathesome, offensive brute. Yet I
can't look away."
"He transcends time and space."
"He sickens me."
"I love it."
"Me too."
An elderly art loving couple,
admiring the painting of Kramer, in "The Letter"
E para
terminar eu gostaria de sugerir um exercício. Analise por uns dois ou três
minutos o quadro abaixo e veja o que a sua intuição lhe diz:
The Courtyard of the Old Residency in Munich
…
Agora, sabendo mais informações sobre o artista, veja se a
sua concepção inicial muda:
O artista que pintou este quadro nasceu em uma pequena
cidade da Áustria e com 19 anos saiu de casa para tentar ingressar na Academia
de Belas Artes de Viena, onde foi recusado 2 vezes. Ele sempre quis ser um
artista, idéia não muito bem aceita por seu pai, que desejava que ele seguisse
carreira como funcionário público e, portanto o reprimia.
...
Aos 21 anos, já órfão, chegou a passar fome e a viver num
asilo de mendigos. Teve depois a idéia de copiar postais e pintar
paisagens de Viena - uma ocupação com a qual conseguiu financiar o aluguel de
um apartamento. Pintava cenas copiadas de postais e vendia-as a mercadores,
simplesmente para ganhar dinheiro e no tempo livre se dedicava a suas pinturas,
à leitura e era assíduo frequentador da òpera de Viena. Em 1913 se muda para
Munique na Alemanha e continua vendendo seus quadros na rua. No ano seguinte
tem sua carreira interrompida, pois apesar de ter sido declarado inapto ao
serviço militar ele é convocado para alistar-se ao exército como mensageiro,
função que exerce durante toda a Primeira Guerra Mundial.
Volte a analisar o quadro por
mais dois ou três minutos.
...
Você está pronto para escrever a sua crítica sobre a obra?
O último detalhe relevante que faltou revelar é que o pintor do quadro é Adolf
Hitler.
By
Leonardo Carnelos































